Ela

Nunca imaginei que você estivesse por lá, já tinha chegado em casa, já passava das 22 horas e eu caminhando pelas ruas como andarilho sem rumo, talvez tivesse um lugar pra chegar, mas as incertezas perambulavam na minha cabeça, então fui andar como se o combustível pra pensar em você fosse meus passos.

As vezes eu acelerava, outras eu diminuía para me desviar das poças de lama ou mesmo que lado tomar. Até que eu encontrei um daqueles cafés que a gente vai depois de um dia cheio, Resolvi entrar e percebi que todos me olhavam, não sei se pelo guarda chuva que esqueci de fechar ou se foram pelos meus pulmões que estavam ofegantes e mal conseguia fazer o pedido.

O lugar estava cheio e o que me sobrou foi um banco de madeira e o canto do balcão para me encostar.  E antes que eu pudesse acomodar por completo sentir que meus pés estavam frios e meus sapatos estavam pingando e naquele instante me distrair por alguns segundos vendo as gotas tocando o chão e se formava um pequeno espelho que refletia a luz do teto. Até que o garçom chegou tocando em meu ombro perguntando se eu gostaria de café normal ou expresso. Levantei a cabeça e olhei pra ele e disse “amargo” limpando meu rosto que estava molhado. Logo após ele trouxe o meu pedido e disse “café amargo não cura lagrimas” e me ofereceu um lenço que estava em sua outra mão, e com isso eu descobrir que não fora a chuva que tinha deixado meus semblantes úmidos e naquele momento o silencio tomou conta de mim, dos meus movimentos e das minhas palavras. Me perguntando porque eu não estava lá, porque não olhei para atrás, porque não gritei, porque deixei todos os barulhos ecoarem sobre minha voz

E nessas alturas o café já tinha acabado, minha xicara recolhida, várias vozes falando ao mesmo tempo e ao fundo escutava o barulho da chuva. Mas eu sabia que tinha que ir, que o tempo contava contra mim.

Acabei que pegando meus pertences, pagando a conta e mais uma vez estava na rua a passos longos e o dia que era cinza tinha virado noite, e em todas esquinas que eu cruzava procurava por ela. Até que fui pra casa, e lá cheguei troquei as roupas molhadas, sentado na cama, debruçado sobre o criado mudo. Sentir um leve cheiro de perfume que a lembrava.Penso que a amnésia me padeceu por algum momento, de um relapso que o tempo me pregou, pois era o teu aniversario, era o dia que a gente ia juntos caminhar nos campos, vigiar as estrelas a noite por horas, brincar e falar coisas sem bobas só pra ver o outro sorrir.

Então, eu abrir a gaveta atropelando meus dedos derrubando o que ali por cima estava como se fosse lhe encontrar dentro dela. E de forma gradual meu coração foi diminuindo os batimentos enquanto ali eu olhava algumas fotos, um brinco que há muito tempo ela tinha esquecido, algumas cartas e um chaveiro antigo de nossas viagens.

Então foi quando eu descobrir, onde você estava, que não era pra ter saído de casa naquela manhã, já havia alguns meses que você não fazia mais parte desse plano.  E ali eu me deitei, apaguei a luz do abajur e fui dormir.

2 comentários em “Ela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s