21 Tons de rosa (Parte I)

Mario, um menino criado na zona rural pertencente a uma pequena cidade do oeste baiano, assim que atingiu sua fase adulta veio procurar trabalho numa cidadezinha chamada Lagarto, pois seus pais se aposentaram logo cedo, devido ao grande trabalho desgastante na roça que começaram desde jovens e não tinha muito o que fazer por lá, visto que a seca tomava conta. Logo ele decidiu ir para casa de um tio passar uns tempos. Com intuito de arrumar um trabalho e terminar o ensino médio.

Sua rotina diária era de casa para um bico que tinha arrumado, e logo depois a noite ia para escola. Apesar de estar na casa de seu tio, era tudo muito novo para ele, era como se tivesse mudado para casa de estranhos, pois havia tempo que não se viam. E com ele morava seu tio Valdo que passava a maior parte do tempo sentado em uma cadeira na frente de casa fuxicando e fumando o seu cigarro de palha e o seu primo de idades semelhantes, que quando não estava na oficina arrumando sua moto velha, estava numa daquelas academias de fundo de quintal se achando o maioral. No entanto, como ele quase chegava em casa na hora de dormir, os contatos eram poucos, mesmo assim volta e meia o primo dele o chamava de tabaréu, matuto, jeca e por aí vai, coisas que o chateavam, mas o dia longo fazia-o esquecer.

O ambiente que Mario mais gostava de estar era onde ele trabalhava de jardineiro e as vezes, um faz tudo, quando não tinha nada para fazer. Era um sobrado enorme de vários cômodos, de uma família que poucos na cidade ainda conheciam, sabia que os pais vieram da capital, junto com a sua filha Julia que chegara meses depois. E poucas pessoas a conheciam de perto, sabiam que era uma pessoa meio estranha e de comportamentos algumas vezes fora do comum, além de quase não sair de casa e quando saia, era de carro, levada pelos pais. Até o próprio Mário que trabalhava na casa, ainda não a conhecia pessoalmente. Na verdade, quem somente tinha acesso a casa toda, era a Dona Vanda, uma senhora de quase sessenta anos nativa da cidade, que tinha uma função comparada a de mordoma da casa e inclusive foi a que indicou Mario para trabalhar lá.

Certo dia no trabalho, Mario estava tirando as ervas daninhas da área do fundo da casa, até que sentiu algo cair no seu chapéu de palha e rapidamente olho para cima, pouco enxergava devido ao sol quente, mas ele viu uma pessoa, uma menina, uma mulher, com a cara de fora da janela do andar de cima, que parecia ter acordado a poucos minutos, de olhar vago e tímido, de cabelos claros esvoaçantes, olhos aparentemente bem pequenos, com bochechas grandes e parecia sorrir, de lábios finos e boca fechada, com uma blusa que parecia mais uma camisola rendada, mas ele também não deixou de notar os peitos dela sendo pressionados na travessa inferior da janela enquanto ela olhava para baixo.

 Naquele momento ele ficou de olhos paralisados por algum tempo, até que alguém a chamou e ela simplesmente se voltou para dentro e foi embora. E nele pairou um instante de silencio, de curiosidade, de uma certa agonia interna, mas logo se lembrou que tinha que dá continuidade ao seu trabalho, e logo em seguida Mario achou uma toalhinha bordada com as iniciais do nome dela (JCM), daquelas que a gente usa para limpar as gotas de suor que surgem no rosto. Ele rapidamente guardou no bolso meio desconfiado e foi terminar o seu serviço.

Depois do seu longo dia o que ele mais queria era deitar na cama e lembrar daquele momento que o deixou confuso, se pelo sol quente que incidia em seus olhos ou por ter criado nele uma curiosidade misturada com ansiedade, uma vontade de pelo menos dizer um simples “oi”, talvez uma gota de sentimento que nasceu ali naquele momento. Então, ele pegou aquela toalhinha como quem tinha muita sede e correu em seu nariz, suspirando como um poeta envaidecido pelos seus versos e foi dormir sonhando ou foi sonhar dormindo.

E lá foi Mario no dia seguinte ao seu trampo, era bem cedinho e nunca uma pessoa teve tanta vontade de ir ao trabalho em plena sexta de verão como ele. Estava entusiasmado e com muita esperança de vê-la novamente de puder dizer algo. E assim que ele entrou, ele avistou ela desta vez a alguns metros de distância. Lá estava ela sentada em um dos degraus da porta de dentro da casa esperando sua mãe tirar o carro da garagem e abrir o portão da saída.

 Assim sendo, ele mais uma vez, ficou imóvel, sem disfarçar, querendo de alguma maneira se comunicar, mas não sabia o que fazer, o que falar naquele instante. Mas ele pode vê-la por completo, ela era gordinha, altura média, de cabelos longos e uma franja que cobria sua testa, bochechas rosadas, rosto arredondado de olhos perdidos, as vezes parecia uma menina outras vezes uma mulher. Mas o que ele achou esquisito, foi ela está com umas vestimentas bem diferentes, além de botas e luvas de couro também estava com um capacete de equitação nas mãos e uma espécie de jaqueta que lembrava mais um colete salva vidas. Logo ela acenou com aquele aparente sorriso longo de boca fechada e entrou no carro e ele acenou de volta no silencio.

Talvez sua curiosidade tivesse aumentado, talvez era apenas uma inquietação do momento, o que uma menina ia fazer com todo aquele aparato logo cedo, será que foi andar de cavalo, Pecuarista, Fazendeira, o que??

Juntaram-se tantas coisas que Mario não se aguentou com sua curiosidade e logo na primeira oportunidade que teve com Vanda a empregada da casa. Foi perguntar o que Julia fazia? Então dona Vanda olhou bem para ele e disse:

 – Ela nasceu com um problema chamado Síndrome de Down um tipo de distúrbio genético que causa vários atrasos no desenvolvimento e deficiências físicas. E felizmente ela tem feito vários tratamentos para ajudar no seu desenvolvimento, como tocar instrumentos musicais e tratamento equoterapêutico que sempre que ela vai fazer precisa daquelas roupas que você a viu, antes de sair. Entendeu agora? Inclusive ultimamente ela tem falado de você, acho que ela gostou de você, mas quem não vai gostar nada disso é a nossa patroa, pense bem no que vai fazer.

– Agora deixa eu ir pegar o meu batente. Disse Vanda.

Logo após a conversa ele sorriu sem falar nada e também voltou ao seu trabalho matutando o que poderia fazer para falar com Julia.

Ao ir à escola a noite, a cada três palavras que Mario escrevia, era pensando nela, tanto que ele teve a ideia de escrever uma carta, assim que chegasse em casa. E foi o que ele fez, só não sabia, que o chato do seu primo nesse dia ia chegar bêbado em casa e pegar ele escrevendo uma carta na mesa da cozinha. O primo tomou a carta de sua mão e começou a desfazer dele, falando coisas do tipo:

– Olha pro Jeca do Mario, escrevendo cartinhas melosas para aquela doida que ninguém sabe quem é!
-Está apaixonadinho! (risos)
-Venha pegar esse papel da minha mão seu caipira, imbecil!
-Veio pra cá, pra ficar atrás de uma doente, que não sabe escrever um “O” com o copo,
-Só podia ser uma besta como você mesmo!
E continuou insultando-o,

Até que ele amassou a carta com tanta força que sumiu em sua mão e jogou no primeiro canto que encontrou e saiu resmungando como se tivesse certo de alguma coisa. Mario não falou nada, simplesmente recolheu aquele bolinho de papel que estava os seus escritos e foi para o seu quarto, com o ar de tristeza em seu rosto e a raiva que apertava seu coração. Apesar de tudo ele sabia que folgava no dia seguinte e que teria tempo para refazer a sua carta.

Mario tinha passado o final de semana dentro de casa, a maior parte do tempo no seu quarto, que tinha mais tranqueiras do que suas próprias coisas. Assim, já iniciava a semana e ele sabia o que fazer. Todo esperançoso e pensativo para o seu trampo, e a semana seria bastante cansativa, pois teria que colocar grama em todo jardim da casa, e com tudo isso a semana tinha passado rapidinho já era quinta-feira à noite deitado em sua cama e o máximo que ele conseguiu foi ouvir a voz dela ecoar pela janela até ali.

 Ele sabia que tinha só mais um dia naquela semana para tomar alguma atitude, então ele acordou mais cedo que o de costume, pois lembrava que as sextas ela ia fazer equoterapia, só que desta vez ele chegou atrasado, ela já estava saindo dentro do carro, apenas sorriu acenando para ele. E ele com um olhar cabisbaixo e um sorriso sem graça acenou de volta. Imaginando que não a mais a veria naquela semana, já no fundo da casa, puxou o papel do bolso e fez um aviãozinho jogando em seguida pela janela que dava do quarto dela. Na verdade, ele queria vê-la, pegar nas mãos dela e entregar-lhe a carta. Mas ele seguiu o plano B, talvez arriscando na sorte ou apostando nos bons ventos que pudesse soprar ao seu favor, de sentimentos inquietantes, de vontades sucumbidas pelo seu destino, o que restava agora era ter fé, acreditar que aquela carta seria lida por Julia.

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