Reflexão de cadeira

Estávamos lá sentados naquele chão de mosaico, cheio de retalhos que se completavam como se fosse um grande quebra – cabeça de cores diferentes. O dia estava claro, mas lá dentro, não muito, as flechas do telhado faziam fagulhas de luz no chão e eu curtia muito observar seu movimento dentro de casa fazendo com que refletisse pelas paredes e criava um clima confortável, as vezes uma borboleta se perdia e ia parar lá na sala, mas nunca numa altura que eu pudesse toca-la. Enquanto eu e minha irmã brincávamos de picotar folhas de tempero para colocar na comida.

Essa é a lembrança mais antiga que eu tenho de criança. E o interessante é que para mim é como se eu tivesse atravessado um portal para os tempos mais recentes, como se eu tivesse acordado de um longo sonho e de repente já era um adolescente e daqui a pouco um adulto, mas de lá para cá o tempo não me tirou essa lembrança, não sei se ele foi justo comigo, faz tanto tempo, mas quando lembro faz do meu coração mais leve.

Talvez eu fosse um exímio em observar pequenos detalhes, em transformar fenômenos naturais em versos, em acreditar que o mundo era perfeito diante aos meus olhos, que pena ainda não tinha descoberto essa habilidade em mim. De escrever o que eu vejo, de procurar sinônimos do que eu sinto, mesmo que hoje, não fizesse nenhum sentido me ver no passado, sem rótulos, sem julgamentos. Talvez fosse algo dolorido, como andar de sapatos apertados em uma linda paisagem e ficar em dúvida durante o percurso se tiraria os calçados ou deixaria para o fim da caminhada.

A vida tem dessas coisas, alguns sonhos e realidade o tempo dá um jeito de confundir, de ir aos poucos desfigurando os pequenos detalhes até a gente se perguntar se realmente algumas coisas aconteceram. Mas nós somos a grande prova que o passado existiu, parece obvio falar isso, porém nem sempre estamos conscientes de cada decisão que tomamos em nossa trajetória. Nem todo bebê que chora tem fome como nem todo humano de coração vazio estar solitário. Às vezes só quer ser ouvido e algumas vezes é preciso chorar mesmo, como uma estação do ano que chega ao fim. Os animais já sabem muito antes que o sol amanhã será outro enquanto nos, muitas vezes precisamos ver as folhas caírem e o rios mudarem seu curso. Mas podemos ser como eles, basta a gente dar ouvidos ao silencio, dar ouvidos ao que parece nada acontecer.

Um dia desses a noite eu estava observando a lua minguante, ela nascia de trás de umas casas, e me veio uma certa ansiedade, porque a lua insistia em não sair do lugar, meio esbranquiçada devido as nuvens. Mas toda vez que eu tirava a minha atenção para outras coisas ao meu redor e me perdia no tempo, a ansiedade parecia diminuir e ela, a lua, se movimentar mais rápido. Aí me veio um questionamento. Será que focar o tempo todo no que a gente quer é saudável e vai fazer com que chegue mais rápido nossos objetivos ou simplesmente as coisas vem no seu tempo e nossa celeridade é apenas ansiedade da caminhada que resolvemos trilhar? Sinceramente não sei. Mas dar atenção as coisas que acontece ao nosso redor é muito importante também.

Contudo, por mais que estamos buscando ou conquistando alguma coisa a gente nunca está fazendo uma única coisa e mesmo que queremos que isso aconteça nós temos um mundo lá fora que precisa da gente ou gente precisa dele. É como se as flores e borboletas para existir precisassem do inverno frio e chuvoso. Acho que sempre existirá mais uma camada a ser conhecida, vivenciada, experimentada. Sim, existem os pontos de parada, mas é bom lembrarmos que para cada ponto de parada pode ser só o começo.

6 comentários em “Reflexão de cadeira

    1. Muito obrigado querida. Foi um dia de lua cheia. Estava na varanda quando veio essa inspiração. Foi tocante. Tá aí da maneira mais simples que pode colocar. Fico feliz por ter feito sentido pra ti. E de fato no mínimo pode nos fazer enxergar melhor a situação.

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