A Fé da Dona Severina

Conto inspirado em relatos e ditos de pessoas da época.

Era uma manhã ensolarada, os passarinhos cantavam, as galinhas ciscavam para os quatro cantos, os cachorros estavam descansando sobre as sombras de um pé de manga, enquanto uma chaminé improvisada jogava fumaça pelo telhado da casa de adobe, que vinha do fogão a lenha de dona Severina, que estava a cozinhar uma feijoada e fervia o leite para matar a ressaca dos seus filhos e seu marido que fora dormir no limiar da lua e sem mais pau para queimar a beira da fogueira que nem fogo mais tinha. Numa quermesse que acontecia no dia anterior, era dia de São Pedro e como diziam os antigos o ultimo santo dos festejos juninos.

Dona Severina como uma boa mulher da época nunca foi de bebedeira, sempre cuidadosa, uma religiosa confessa das tradições católicas e tinha como maior vaidade seu cantinho de orações onde ela mantinha todas as suas imagens e esculturas santificas muito bem limpas e intocáveis naquele pequeno altar suspenso na parede junto também ao seu presépio que servia como decoração da sala, era tudo muito simples, e lá tinha um rádio a pilha que volta e meia tocava Benito de Paula e um candeeiro pendurado no telhado com uma mesinha e cadeiras de madeira no centro que seu próprio marido Tertuliano tinha feito.

Sentada num pedaço de tronco de arvore na cozinha, enquanto separava os pedaços de mocotó do porco para pôr na panela de barro, o vento forte que assobiava para dentro de sua casa já tinha queimado quase toda a sua lenha, que pouco a pouco diminuía, até que ela percebeu que já não havia mais fogo e foi catar mais lenha.

Algo estranho estava acontecendo, mas dona Severina não sabia, ela estava no meio da roça a catar mais lenha e as cigarras cantavam como se chegasse o fim do dia, mas ainda nem era meio dia, as galinhas começaram a procurar tocos para se recolher, os galos cantavam e as revoadas de pássaros passavam como se fosse uma despedida, enquanto ela distraída arriada no chão colocava lenha no seu calamaço resmungando de suas dores nas costas.

De repente uma grande sombra veio tomando o chão e ela a pensar que chegava era chuva, mas não, era o dia virando noite em plena luz do dia, era o sol tomado pela escuridão e dona Severina largou tudo e saiu correndo pensando que era o fim do mundo, tropeçando, gritando, pedindo perdão pelos seus pecados a Deus e aos santos, tentou acordar a todos que ainda dormia, desesperada foi para o seu canto ajoelhar diante do seu altar e de olhos bem fechados e mãos tremulas erguidas, pedia perdão pelos pecados e salvação a sua família e seus olhos enchiam de lagrimas pedindo que não fosse naquele dia pois seus filhos ainda muito novos não sabiam direito o que era a vida.

Até que depois de uns bons minutos o menino caçula se aproximou dela tocando-a no seu ombro e disse: – Mãe o que está acontecendo, o porque a senhora está se tremendo e chorando? O fogo do fogão esta apagado e a gente precisa catar mais palha para cozinhar a comida. E aos poucos, dona Severina foi abrindo os olhos e olhando para os lados e para cima, viu que estava tudo normal, o dia continuava claro. Ela abriu um sorriso olhando para o seu filho Firmino daqueles sorrisos tipo o de Mona Lisa que só o Da Vinci para saber o que ela escondia. Ela se levantou e crente que Deus tinha ouvido suas preces mandou o seu filho terminar de catar a lenha enquanto ela ainda rezava e agradecia, ele achou tudo aquilo estranho mas seguiu seu caminho.

Mas na verdade foi o eclipse solar de 30 de junho de 1973, onde seu filho Firmino bem mais tarde, anos depois, descobriu na escola nos livros de geografia e historia o que houve naquele dia, ele guarda in memoriam da sua mãe esse acontecido e lamenta por não ter dado tempo de explicar a ela o que realmente havia acontecido.

6 comentários em “A Fé da Dona Severina

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