Amália Maria (parte II) Fim

Foto por Khoa Vu00f5 em Pexels.com

Os olhos de Amália Maria brilhavam com todas aquelas luzes voltadas para o palco com seus pés firmes no chão de madeira enquanto sua cabeça flutuava por todo o teatro ao canto do Lago dos cisnes ao mesmo tempo o silencio do público criava uma atmosfera de suspense e ansiedade com cada passo perfeito que Amália harmonicamente dava junto com a música, era de uma fluidez que as vezes parecia estar pisando em nuvens, sua liberdade transcendia suas dores e seu corpo estava além daquelas quatro paredes que transformava sua suavidade e delicadeza em uma obra de arte dançante. Até que  num pequeno deslize de um pulo, ela perdeu o equilíbrio e fraturou a tíbia da perna direita, caiu no chão com muita dor, mas de repente Amália descobriu que tudo não passava de um sonho e na verdade ela acordava com fortes câimbras na coxa e faltava um pouco mais de vinte minutos para estar na sua aula de ballet, que já tinha algumas semanas que ela havia retornado aos ensaios e exercícios.

Apesar de suas indecisões Amália tinha trancado sua faculdade que faltava pouco mais de dois períodos para terminar o curso de pedagogia, com tudo, essa decisão foi apenas para não pesa na sua consciência o fato de não querer mais vivenciar aquele ambiente universitário. Tudo isso para viver um sonho que ela tinha interrompido há alguns anos atrás, não que desta vez ela tivesse algo certo e materializado, talvez agora fosse pior pela pressão que ela tinha se colocado, no entanto Amália não suportava viver mais aquele vazio que as vezes ela sentia, mesmo com alguns elogios e uma possível carreira promissora, ela era tão excelente que nem notavam sua gagueira. Mas ainda não era o suficiente para suprir seus anseios que o corpo e a mente pediam.

Contudo, ela não era uma mulher de se jogar nos abismos da sorte, já havia pesquisado algumas escolas de ballet para puder dar aula a crianças e continuar com os seus ensaios no mesmo lugar, assim ela poderia ter chances de passar na seleção de ballet do principal teatro da cidade.

Era mais um novo dia que amanhecia e seus um metro e sessenta sete de altura, sua cabeça raspada com os seus olhos grandes amendoados mostravam muito bem, sua forte personalidade como também suas habilidades e fluidez com seus pés rodopiando com as sapatilhas, agora seu instrumento de trabalho era o seu próprio corpo, uma liberdade de sua matéria.  Amália logo se tornou uma das queridas da escola pelas alunas, passou a treinar com os melhores professores que lá tinha e seu sonho cada vez se tornava algo possível, apesar de que com essa nova mestra nada era satisfatório, sempre algo não estava completo. Era uma mulher “senhorada” se chamava Antonina, com seus cachos dourados misturados aos fios brancos, mesmo sendo uma senhora míope que usava grandes óculos para corrigir, não deixava passar nem os centímetros dos dedos na cintura nos ensaios, aposentada dos palcos, mas amiga de todos, mesmo nem sempre agradando com suas falas rigorosas e precisas.

Certo dia estava Amália ensaiando aos olhos da professora Antonina, era final do expediente e ela não estava indo mal, porém para o que ela queria precisava de mais, então a professora Antonina dispensou as outras meninas, sentou no piso de madeira, cruzou as pernas e pediu que Amália sentasse ali próximo dela e disse: – Sabe o que estou sentindo falta Amália, eu acho que você deve se livrar do problema, que faz… Sabe aquela coisa assim, eu vou trabalhar isso em mim, eu vou tirar esse peso de mim, isso não vai me ganhar…, Eu que vou ganhar, então não vejo isso em você. Sinto falta disso e algumas vezes esse problema não está aqui, disse Antonina apontando para o chão e em seguida apontou o dedo para própria cabeça e disse: – Está aqui. Amália em silencio segurou as lagrimas para se mostrar forte, balançou a cabeça como um gesto de que tinha entendido e se levantou e assim que deu as costas veio o seu choro e enquanto ela caminhava a passos ligeiros de volta para casa, alguma coisa gritava dentro de si, só não sabia o que, ela tinha em mente que o dia estava chegando.

Uma compressa de agua quente acompanhado de um chá e um sofá de um lugar era o que amenizavam suas dores nos dias mais difíceis, não posso esquecer do seu diário que era muito comum Amália escrever sobre os seus dias, além do seu amigo Lúcio conhecido dos tempos de faculdade ainda, que fora ótima companhia até a vinda dos pais de Amália para visita –lá, mas enquanto eles não chegavam, Amália escrevia em seu diário o que lhe tinha acontecido. Assim estava escrito:

 ‘’Às vezes nossos sonhos são tão reais que a gente se pergunta se não estávamos visitando outros mundos. As vezes batalhamos tanto por um sonho que eles nos machucam, há alguns meses atrás eu estava acordando atrasada com dores de uma câimbra muito chata, hoje estou aqui acamada com minha perna enfaixada, meu destino só trocou a perna machucada, tudo tão semelhante como num sonho que eu também tive há meses atrás. Pena que no sonho eu acordava antes de saber que seria uma das escolhidas, talvez eu tivesse chorado por outros motivos naquele dia’’.

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

caso tenha interesse em saber um pouco mais da vida de quem escolheu ser bailarina(o) segue um pequeno documentário. https://youtu.be/QTB3QR5nOwI

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