A Benzedeira, o Menino e a Cobra

Vale do Capão – Chapada Diamantina – Ba

O sol nem tinha aparecido no horizonte ainda, os pássaros estavam acordando e a senhora Rosália conhecida como dona Rosa a benzedeira do povoado já viúva com seus sessenta e sete anos de idade morando sozinha em uma casa simples coberta por telhas amareladas desbotadas do tempo e no interior de sua casa decorada por quadros de sua família e do casamento, além das várias imagens de santos em barro e quadros  pendurados pelas paredes brancas de pintura ruídas e que volta e meia aparecia algum passarinho para fazer ninhos nas brechas entre o cume do telhado e a parede que quando não era a luz do sol que adentrava era as goteiras da chuva que invadia.

Lá estava Dona Rosa capinando a sua horta de feijão e alface que ficava no entorno de sua casa, nessas alturas ela já tinha rezado o seu terço, aprontado seu café preto com banana da terra e canela no seu fogão a lenha, mas só tomaria depois desses seus primeiros afazeres do dia, uma senhora que de longe a gente via as marcas de expressão carimbada em seu rosto pelas ações do tempo de uma senhora que não era muito vistosa, mas de um coração que reluzia.

De repente vem o menino Joaquim, gritando aos desesperos, abrindo a porteira e entrando na roça de Dona Rosa.

– Dona Rosa, Dona Rosa, o filho de Tonho do açude foi mordido de cobra no pasto de seu Hildebrando.

– Não se aperrei não menino, fale devagar, o que foi que houve?

– Benção a dona rosa.

– Deus te abençoe e te dê bom dia. Agora fale Joaquim.

– Mariano, filho de Tonho do açude foi mordido de cobra, ele tá lá na casa de tia Dadinha deitado no sofá com febre e perna inchada, me mandaram chamar a senhora para rezar ele.

– VIXE MENINO! Avise o povo lá que tô indo levar o remédio, o terço e as folhas para eu rezar esse homem.

Lá foi Joaquim correndo novamente avisar que tinha dado o recado enquanto dona Rosa foi pegar as suas coisas para adiantar. Em seu próprio quintal tinha algumas raízes e plantas das quais precisava, colocou enrolado num papel de pão e apanhou o terço sobre sua mesa de costura e na cozinha pegou uma garrafa de agua da fonte que estava debaixo da pia onde ficava outros pertences em conserva e antes de sair tocou na cabeça de um dos santos pedindo iluminação para mais uma de suas missões.

Chegando lá tinha um rodeio de gente na porta, Dona Rosa subiu o batente deu bom dia ao povo e pediu licença para entrar. Mariano estava murmurando de dores, fazendo caretas, com a perna inchada e bastante inflamada. Logo Dona Rosa pediu que todos ficassem do lado de fora e mandou que dona Dadinha preparasse um chá com as raízes e folhas que ela tinha trazido, foi tudo muito rápido, ela pediu silencio e começou a rezar ajoelhada enquanto ela machucava umas folhas no chão com as próprias mãos para pôr em cima do inchaço.

Ela rezava tão baixo que malmente se escutava o nome de Deus e Santa Barbara que tirasse tudo de mal de lá e jogasse no mar. Soava como sussurros de dentro dela. Todos meio apreensivo com o acontecido até que o menino Joaquim pergunta:

– Tia Dadinha onde foi que dona Rosa aprendeu essas coisas?

Oh Joaquim, essas coisas não se aprende é um dom que Deus dá, e quem ele tiver vai descobrindo aos poucos e desde criança a gente já conhece quem nasce com essa aptidão. Você sabia que Dona Rosa foi parteira de sua mãe Jucilene?

Sim, eu sabia, mãe me contou e dos meus irmãos também! Quando eu crescer quero ser cantor como nos discos que a senhora tem na estante.

– Você vai aprender a ler primeiro menino e ajudar seu pai na roça, agora leve essa panela e o copo para dona Rosa e se aquiete.

Quase uma hora se passou e dona rosa tinha terminado a reza e mariano tinha tomado o chá, a febre diminuída e o inchaço menos roxo, ela pediu que ele usasse uma pomada que ela mesmo fez em casa e depois de nove dias que a procurasse em casa para rezar novamente e que agora ele descanse. Mas antes de Dona Rosália ir, ela perguntou?

– Mariano por acaso qual foi a bicha que te mordeu?

–  Eu acho que foi uma cobra coral Dona Rosa, tinhas umas listras vermelhas e pretas por todo o seu corpo, só não sei se foi a verdadeira ou falsa.

-Hummm … Tenha fé!

– Eu não tenho nada para dar a senhora agora mas diga quanto devo que depois eu peço ao menino Joaquim  para dar a senhora.

– Não se preocupe com isso não, se tiver um pacote de vela ou um pouco de adubo pro meu quintal já é de bom agrado. Deus te abençoe

-Até mais ver!

8 comentários em “A Benzedeira, o Menino e a Cobra

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