O mergulho do Sr. Eco

“Não há uma simples casualidade, mas sim uma força atuando para que as pontas soltas se juntem” Carl Jung

Salvador-Ba

Eu me chamo Eco e o cansaço já me acompanha há um bom tempo nessa longa jornada da vida. Às vezes me sinto como se estivesse fazendo hora extra com os meus cômicos 88 anos de idade, digo cômico porque o número oito deitado é o símbolo do infinito, e quando eu olho para trás, coisa que não gosto muito de fazer, tento não pensar que a vida foi injusta comigo, mas foi, mesmo que o taoísmo diga que sou uma consequência do destino e o que muitos chamam de caos na verdade é o que ainda não entendemos ou que o budismo diga que as coisas não param e estão sempre em transformação e eu que aceite a correnteza me atravessar. Assim como foi minha caminhada, algumas sementes que plantei se foram e outras viraram arvores e algumas poucas parecem não querer mudar de vaso, realmente não sei o que é permanente nessa vida.

Mas não estou aqui para justificar os meus erros, nem a minha falta de fios de cabelos pretos por assim dizer. Na verdade, me surgiu até uma pergunta. – Quantos erros eu tive na vida? Porque se o que eu considero erro foi a insistência de algo que não deu “certo” quem seria eu sem as consequências e os desdobramentos de meus tropeços e quedas. Errar faz parte da essência de quem pensa, de quem tenta pelo menos acompanhar as correntezas e a relatividade do tempo põe tudo isso em xeque.

 Penso que se os meus erros fossem tijolos construiria uma mansão com muros, porém bastaria um único acerto para eu descobrir que atrás destes muros, tudo que eu tenho, mas tudo mesmo, das cicatrizes de minhas quedas de bicicleta na infância a dor do termino do último amor que já não carrego mais, junto com meus acertos não passaria de um minimundo, de uma pequena bolha de sabão, que eu criei ao soprar com um canudo e cabe aqui na minha mão.

E quando estou dentro dela é tudo tão quentinho e confortável, tudo tão cômodo e seguro que as vezes a preguiça me cobre de “tudo bem”, dá para ficar mais um pouquinho e me fazer esquecer ou fingir que não existe um mundo lá fora. O mundo que eu falo é de verdade e infinitamente maior, onde meu minimundo, minha bolha de sabão pode ser apagada com um sopro.

Logo essa preguiça que me cobre é tomada por angustias, por uma insuportável necessidade de buscar mais alguma coisa material ou invisível a mim, chega uma hora que mergulhar no raso já não faz mais sentido e é preciso buscar outros mares mais profundos, no início pode parecer desconfortável, desconjuntado e confuso, talvez quando esses emaranhados começarem a desembaraçar, começarem a clarear, a fazerem sentindo já seja hora de partir novamente. Acho que a pergunta não seja qual o sentido seguir, mas se perguntar onde estou nesse momento, se tiver muito raso está na hora de dar mais alguns passos, mesmo que os muros que te cercam tenham que ser destruídos, eu sei, talvez soe injusto, mas já estou acostumado com essas dores, sempre tem algo a aprender. Estes muros no qual falei são os que me impedem de ver além, não dos erros (tijolos), porque as ações do passado são indestrutíveis.

Não queria me sentir um tolo nessa idade por ainda ter dúvidas, pensei na minha juventude que quando chegasse nessas alturas seria o senhor das certezas, que eu teria os segredos da pedra filosofal comigo, contudo o máximo que eu tenho é o que eu já “não quero mais”, pois ecoa por todas as minhas artérias e neurônios essa limitação frutífera que camufla o meu ego, porém volto a falar. O fato de “eu não querer mais”, não quer dizer que eu tenha o mapa de uma floresta desbravada, mas é que a pedra filosofal que eu tanto procurava, hoje eu temo que ela exista e na verdade seja a pedra de Sísifo, por isso eu evito arduamente de repetir os caminhos a não ser os de volta para casa e ainda sim coisas diferentes brotam. É uma fachada nova, uma florzinha que aparece na calçada a vida simplesmente não para.

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