A Lavadeira Carmelita e sua filha Violeta

Vale do capão – Chapada Diamantina – Ba

– Violeta, Violeta …  Acorde minha filha já são seis e tantas da manhã vá lavar o zoi e comer um beiju com mel para gente aproveitar o sol frio no caminho da serra, enquanto isso vou fazer o arrumadinho para o seu pai que já está quase de partida, tem uma dúzia de mulas e umas encomendas de seu Nelson para entregar na fazenda das Gerais.

A senhora Carmelita estava com tudo quase pronto e seu esposo com a vida de tropeiro já tinha ido embora, enquanto sua filha Violeta estava tomando seu café da manhã, a senhora Carmelita arrumava sua quitanda para depois de meio dia puder comer, pois o dia seria longo e tinha muitas roupas para lavar no balaio. Roupas tanto de sua própria família como as que pagavam pelo seu serviço também.

Duas coisas que violeta adorava nos dias que ela ia lavar roupas com a sua mãe era as cantorias das lavadeiras e tomar banho no rio e no caminho ela também cantava e observava as flores para na volta puder escolher as melhores para enfeitar e perfumar a casa também, ela tinha onze anos e era filha caçula do casal, o menino Carlinhos um pouco mais velho ajudava o pai na labuta.

Lava, lava lavadeira
No Riacho da Limeira
Lava roupa nessa beira
Enquanto o sol não vai embora
E te deixe voltar com o balaio molhado
E dores nas costas. (…)

Assim com esses versos a senhora Carmelita e sua filha Violeta iam cantando enquanto subiam a serra, cada uma com um turbante na cabeça decorado por um lacinho e uma flor de fuxico muito colorido, para proteger do sol como também conseguir equilibrar o peso do balaio na cabeça, levavam consigo também o sabão em pedra muitas vezes feito em casa dado pelas donas das fazendas, além de uma tabua de madeira para apoiar as roupas e palha de milho que ajudava na lavagem também.

A menina Violeta sempre chegava na frente de sua mãe, gostava de correr e de cumprimentar a todas as senhoras e sempre tinha uma merendinha diferente que ofereciam a ela.

Mas antes que ela pudesse se distrair sua mãe já chamava a sua atenção. – Vamos Violeta, adiante minha filha, temos muitas roupas para bater hoje sem falar dessas roupas grossa de cama, depois que a gente terminar e colocar elas para quarar você pode brincar no rio.

E assim o dia foi correndo como a correnteza que leva as aguas do rio, que levava as sujeiras e as espumas das roupas sujas, os desabafos e as fofocas que só ficavam por ali, sem falar nos choros e nos lamentos de seus problemas de família, aquelas mulheres se reuniam quase todos os dias por ali, eram como uma grande família, marcadas pelas cantigas e seus braços fortes dentro e fora de casa, educadas quase que o tempo todo pelo seu meio que passava de geração em geração.

– Mãe estou com fome, a senhora trouxe o que? Perguntou Violeta.

– Não se apresse Violeta que já vou desfazer a quitanda, eu coloquei carne seca, farofa e paçoca de amendoim, mas antes vá lá naquelas cercas atrás daquelas pedras grandes e pegue para mim uns ramos de melão porque o sabão acabou e faltam umas duas peças aqui para eu terminar e depois veja lá com a dona Roselinda e dona Maria o que elas trouxeram para a gente dividir, ah e não esqueça de levar logo a cuia que está dentro do cesto de roupas.

Então Violeta como sempre saiu esbandeirada com a cuia na mão talvez nem muito pela fome ou o sol que estava muito quente, mas pela animação de logo depois tomar seu banho de rio e procurar peixinhos nas piscininhas que se formavam entre as pedras. Engraçado que assim eram com as outras mulheres também, não que fossem procurar peixinhos no rio, mas antes que o sol tocasse nas copas das arvores ou sumisse atrás das serras elas já se banhavam, pois não tinha agua o tempo todo em suas casas, além de morar longe dos açudes e ainda levavam um vaso de agua na volta para puder tirar a poeira dos pés na porta de casa.

E lá vão elas no caminho, voltando para suas casas, equilibrando seus balaios de roupas secas na cabeça e com as pernas cansadas e dores nas costas, mesmo assim seguiam cantando enfileiradas, as crianças iam na frente e todas vendo as primeiras estrelas no céu aparecendo enquanto o azul do céu ia desfalecendo e mais um dia indo embora.

Quero ver quebrar
Os meus olhos no mar
Quero ver quebrar a dançarina no salão
A roupa um tantão assim
O Dinheiro um tantão assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para secar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para secar a roupa da minha sinhá (…)

Depois de quarenta e poucos anos a netinha de Violeta pintando uma aquarela pergunta enquanto ela contava a história: – Vó porque não se lava mais roupas nos rios?

– Oh Laurinha porque hoje usamos maquinas de lavar que já dar roupas prontas e também tem agua no tanque e na torneira que antigamente não tínhamos para gente que morava no interior e mesmo assim muitos rios hoje estão poluídos ninguém tem mais coragem de botar o pé lá.

Vale do capão – Chapada Diamantina – Ba
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