Constante Atemporal (Parte II)

Tem coisas e momentos que acontecem com a gente que não temos ideia do porquê, e as vezes algumas semanas, meses ou anos depois é que vai fazer sentido tal passagem de nossa vida. Como se tudo já estivesse escrito em um filme negativo e de repente colocassem para rodar, mas talvez essas ramificações a gente mesmo é quem cria, ligamos alguns pontos e abandonamos outros, porém como a vida não é linear, usamos o relógio para registrar o que achamos de relevante em nossas vidas. Mesmo que logo, já estejamos olhando pelo retrovisor de algum fim de domingo a tarde com um porta retrato nas mãos.

Lá estava Fabrícia procurando um brinco em uma das gavetas do seu quarto que ganhara de presente na adolescência, única lembrança que Eduardo havia dado a ela na época das férias do colegial quando vinha a grande cidade. Enquanto ela se arrumava de frente ao espelho, olhava algumas rugas nos cantos dos olhos, contava alguns fios de cabelos brancos e seu cabelo ainda mais curto e um pouco ressecado do tempo, de certa maneira ela queria reviver um sonho que esperou tanto tempo, sabia que não era mais aquela menina apaixonada sem outras responsabilidades a cumprir, porém o sentimento parecia ser o mesmo. Pulsava dentro dela aquele recheio de paixão misturado com umas gotas de ansiedade, apesar de que era um simples encontro em frente ao antigo farol de uma praia.

Eduardo não parecia muito contente pelo convite feito, estava nervoso e como sempre confuso, achava que não tinha nenhuma necessidade de um reencontro, e ficou se questionando por tal atitude, por outro lado já estava pronto e sabia que não era mais aquele menino bobo cheio de imaginações que o cercava de medos e receios. Enquanto ele coçava levemente sua barba premeditando o que faria, o silencio foi tomado por um pequeno sorriso assistido pelas paredes. Então o plano era não fazer planos, nem ele mesmo sabia o porquê de tudo aquilo que estava acontecendo e assim de forma tão rápida. Ele desamarrotou a camisa e era hora de ir.

Fabrícia pegou em seu braço como se fosse um convite para dançar, entusiasmada e com os olhos bem abertos e cada palavra que ela soltava vinha acompanhado de um sorriso que desenhava a energia que ela tinha por dentro, mas no fundo uma insegurança de que seria mais um passeio depois de tanto tempo. No entanto a felicidade intensa de Fabrícia o contagiava e logo ele começou a sorrir e falar algumas bobagens que haviam lembrado de antigamente enquanto caminhavam. Eduardo como um bom observador notou o brinco balançando na orelha dela e disse meio que em tom de brincadeira: – Vendo esse brinco em você e esse sorriso inesquecível tenho a impressão que atravessei algum portal do tempo e nesse espaço tempo não vejo outra coisa a não ser você. E seguido de sorrisos eles se encostaram em um parapeito que dava uma vista alta do mar e o farol logo atrás deles iluminando aquela noite junto com a lua crescente.

Fabrícia e Eduardo estavam bem próximos um do outro, trocando olhares e conversas breves. Tudo o que passava na cabeça de Eduardo era de contra a sua vontade racional, era um conflito interno que ele tinha que enfrentar ou simplesmente seguir o que o coração pedia. Ficar pensando muitas vezes no depois criavam problemas dos quais só atrapalhava aquele momento, enquanto Fabrícia estava falando ele olhou para os lados como se quisesse pegar uma carona com o vento que estava passando. E foi o que ele fez, tirou a respiração dela com um beijo, um beijo que tinha o peso de quase duas décadas de desejo, um beijo que falava mais que as palavras de ambos, um beijo com sabor de brisa do mar, um beijo com um cheiro de saudade e seguia o fluxo da maré morta que fazia o vai e vem do mar. Nem ele mesmo estava acreditando e pôs a culpa, no universo, no destino em qualquer coisa que o isentasse do seu desejo.

Fabrícia estava sem palavras e tentou parecer um pouco desconcertada para não demonstrar que estava esperando pelo beijo, não falou nada, mas seus olhos tinham direção e esperança de que aquele havia sido apenas o primeiro e Eduardo pensando por dentro se realmente gostava dela ou era um impulso de desejo, se aquele labirinto que ele havia caído tinha encontrado a saída ou ali era o primeiro caminho de vários outros. Ele talvez não a amasse como ela realmente o amava, ele talvez não quisesse nada depois dali, mas não queria decepciona-la, não queria esperar por arrependimentos preso num quarto reclamando consigo mesmo porque não tinha feito.

Um abraço forte e demorado de quem estava pensando com o coração, de rostos cruzados e debruçados nos ombros. Enquanto Fabrícia olhava em direção a luz do farol, Eduardo olhava em direção ao horizonte do mar.

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