
Naquele momento despertava o jovem Osíris. Sete séculos haviam se passado desde que, aos vinte e seis anos, fora o único de sua família escolhido para ter o corpo criogenicamente preservado. Fora uma decisão voluntária, tomada em uma época em que a tecnologia ainda estava em fase de testes. Ele e apenas outras onze pessoas em todo o planeta foram selecionados para essa missão sem volta.
Osíris estava pálido, com os olhos fundos. Quase não sentia o próprio corpo, mas tinha a nítida sensação de que sua pele queimava. Tudo que enxergava eram luzes brancas com leves tons de amarelo. Ouvia vozes que ecoavam, distantes, como se viessem do fundo de longos corredores. Sem forças para se mover, sentia-se mais imerso em um sonho do que em sua própria realidade.
Aos poucos, seus sentidos começaram a voltar. Era como um homem perdido no deserto que, após uma longa e exaustiva caminhada, avista o primeiro sinal de vida. As dunas intermináveis pareciam transformar-se em floresta; a areia que o chicoteava dava lugar a um mar de água fresca; seus olhos pálidos, enfim, encontravam algo para se alimentar. Aquele era o refúgio após uma jornada que havia marcado seus pés, seus joelhos e seu coração.
Sua garganta estava seca e incapaz de emitir sons. No entanto, seus desejos mais íntimos, na velocidade do pensamento, materializavam-se de forma tão abrupta que ele questionava sua própria realidade. Enquanto matava a sede com um copo d’água que bebia vagarosamente, Osíris sentia o líquido inundar sua boca e percorrer seu corpo, como se testemunhasse cada trajeto interno. Havia algo de estranho naquilo, algo que ele não conseguia explicar. Tudo era intensamente perceptível, e ainda assim, aquela atmosfera parecia não fazer sentido.
O silêncio era tão extremo que começou a incomodá-lo, a ponto de conseguir ouvir a sincronia de seus próprios batimentos cardíacos. Seus pensamentos faziam barulho do lado de fora, e as correntes invisíveis que o prendiam começaram a se quebrar, deixando seu corpo mais leve. Era como se Osíris agora tivesse a forma de ondas sonoras, e quanto mais alto gritasse em sua mente, mais presente ele se tornaria.
As luzes branco-amareladas que ele enxergava começaram a ganhar outras cores e formas. As vozes que ecoavam à distância tornavam-se cada vez mais nítidas. Seus olhos já não estavam tão fundos nem tão opacos. Osíris conseguia sentir o chão, o ar gelado invadindo seu corpo e o calor reconfortante das lágrimas que escorriam em seu rosto ao lembrar dos sete séculos passados. E bem à sua frente, de forma cuidadosa e calorosa, estava um ser humano por quem nutria profundo amor e carinho, e que despertou nele um sentimento há muito esquecido: a saudade. Era sua mãe, Nut, sorrindo com felicidade estampada no rosto, enquanto Osíris chorava, confuso com os pensamentos que ainda gritavam do lado de fora.
Levaste-me a acordar com Osíris. A entrar no seu processo de acordar e observar. Pensar…
Fico curiosa com a continuação, promete. 😉
Um bom fim de semana Ed.
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Vi que sentiu a good vibe no texto. Obrigado por vir aqui. Bom domingo e boa semana 😙
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