Distopia do Renascer (Parte 2)

O Abismo de Osíris

Osíris não sabia onde estava, nem em que época vivia. Ver sua mãe, Nut, à sua frente, fez com que pensasse que o processo de criopreservação havia falhado. Na realidade, porém, toda a sua família jazia no esquecimento do tempo. Todas as sensações e percepções que experimentara não passavam de uma necessidade de sua própria mente de suprir a existência, buscando sentido nas distorções de luz e nos ruídos de um limbo desconhecido.

Com o passar do tempo, Osíris foi percebendo que a vida havia mudado. Sua forma de ver o mundo já não era a mesma; suas transformações internas foram tão profundas que, embora pudesse ter tudo que desejasse, algo essencial faltava. Algo não se encaixava. Esse vazio interior o deixava confuso. Tudo era intenso, mas ele sentia como se observasse a vida através de uma vidraça distante e embaçada, presa a paredes que não se equilibravam no chão.

Em meio a suas reflexões, Osíris pensou em voz alta:

— Resistir talvez não fosse a resposta, mas eram as fagulhas de minha essência gritando dentro de mim a não aceitação do que sou agora.

Aonde estou, se não aqui atrás de meus olhos?
Luz que derrama para onde aponto.
Escuridão que se esconde em chamas.
Meus arrependimentos são pedras de concreto
que me transformaram numa estátua do passado.

Aqui, clamo pela minha existência.
Se não sou tudo isso que sou,
me despeço.

Naquele momento, Osíris não tinha nada além daquele grande abismo e do silêncio que o acompanhava. Lembrou-se de que talvez sua estadia no deserto tivesse sido melhor; apesar de toda a amargura, pelo menos lá havia um fim claro. Mas sua jornada dali em diante não seria ao lado de sua família, amigos, escola ou trabalho. Despertar para um novo estado trazia consigo novas formas de enxergar o mundo — um mundo onde ele mesmo ainda era um desconhecido. Havia, de fato, uma aresta faltando: aprender a aceitar, incondicionalmente, a condição de ser.

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