Amália Maria (Parte I)

Foto por Ryanniel Masucol em Pexels.com

A jovem Amália sempre foi uma estudante duvidosa pelo olhar dos outros nos seus tempos de graduação, veio do interior para seguir seus sonhos na capital e um deles era estudar pedagogia, além de gaguejar muito tinha uns ataques de choro repentino onde ela nunca declarava o porquê, geralmente ela pedia licença  e se retirava não se sabia se era para enxugar as lagrimas ou terminar de chorar, mas sempre foi uma garota gentil, muito educada, inteligente e disciplinada conhecia muito do que estudava e tudo que fazia era com muita dedicação a ponto da maioria das vezes não parecer uma pessoa normal diante ao comportamento das outras.

Geralmente eu a via sozinha pelos corredores, abraçada aos livros como se abraçasse alguém com muita vontade, sempre com passos longos e olhar de paisagem e uma bela postura que chamava atenção, mas no menor olá que Amália recebia, ela estava ali para conversar, parecia uma menina sozinha, solitária onde estava procurando se encontrar em meio a tantas coisas que ela ainda iria conhecer, por outro lado eu não via medo nos olhos dela, muito menos temor a julgamentos. Uma certa vez perguntaram a ela como ela fazia para controlar toda a meninada na sua experiência em sala de aula como estagiaria já que ela tinha problema de gagueira. Amália disse que quando ela estava em aula de frente a todos, ela falava baixo e de forma pausada, assim teria mais atenção das crianças e de maneira breve ela disse que não tinha problemas com os seus alunos.

Percebi que ela estava desconfortável com a pergunta que soou meio inconveniente e que já estava olhando para os lados como se estivesse procurando alguma desculpa para sair daquela roda, então logo procurei os olhos dela como se quisesse me comunicar, acho que ela percebeu e devolveu o seu olhar, eu sorrir meio sem graça, dei um passo em sua direção e perguntei de canto o que ela gostaria de ser se caso não fosse pedagoga, ela disse rápida e precisa antes que eu terminasse a pergunta. – Uma bailarina profissional. O que logo veio à mente foi perguntar porque ela não estava fazendo o que ela queria, mas fiquei receoso, imaginando que seria muita ousadia da minha parte ao passo que poucas foram as nossas conversas. Ela não demorou por ali e aproveitei para acompanha-la, pelo menos até onde daria.

E para a minha sorte ou azar no que chegamos na saída do prédio estava chovendo, eu fiquei olhando para os lados com as mãos nos bolsos com a maior cara de pato enquanto ela abria sua mochila e pegava seu guarda-chuva e me perguntava se eu não queria acompanha-la, que me deixaria no ponto de ônibus mais próximo, pois ela iria andando e morava a uma quadra dali. Olhei para ela por dois segundos e disse sim, claro.

Aproveitei para perguntar se ela já tinha feito ballet alguma vez. Ela disse que sim, que já era formada desde sua adolescência só que os caminhos da vida levaram ela a entrar na faculdade por não ter encontrado as oportunidades para se tornar uma bailarina profissional, mas que ainda praticava, mesmo não lembrando da última vez que viu seus vestuários do ballet. O ponto de ônibus tinha chegado infelizmente (risos) eu agradeci e ela seguiu seu caminho, eu não era muito de gritar pela rua, mas veio aquela vontade instintiva dentro de mim, então falei bem alta. – AINDA QUERO VER VOCÊ DANÇANDO BALLET POR AI. Ela olhou para trás, sorriu e acenou como se dissesse quem sabe um dia.

Amália tinha chegado em casa aos prantos lembrando de sua carreira de um passado não tão distante que não tinha ido a frente, não que ela fosse insatisfeita com o fato de estar no curso de pedagogia, pois gostava muito de tratar com crianças, mas sabia que poderia voltar aos salões e palcos e que tinha forças para continuar. Olhando pela janela, começou a refletir por alguns minutos enxugando suas confusões mentais, relembrando suas dores físicas e psicológicas que emergiam do ballet. Talvez não tenha sido a conversa que ela teve na rua com o seu novo amigo mais cedo ou aquele grito que possivelmente ecoou em sua alma e ela tentou disfarçar que a deixou mais sentimental.

Amália acendeu a luz do quarto abriu a porta do seu guarda-roupa e lá tinha um cantinho especial, soava como são expostas as joias reais em museus, porém o que tinha naquele espaço dela era seu Tutu Clássico de renda junto a sua sapatilha e os acessórios de apresentação sobrepostos. Ela de forma vagarosa e delicada colocou sua meia calça, vestiu seu Collant e calçou sua sapatilha e de frente ao espelho foi se tornando uma bailarina como um guerreiro que impunha sua espada e segura seu escudo se preparado para uma nova batalha. No caso de Amália não era uma nova batalha, mas uma ressignificação do que ela acreditava, da chama que ela nunca deixou que apagasse dentro de si, mas por algum motivo tinha estacionado em algum lugar do tempo. Ela escolheu sua música preferida e com um pequeno sorriso diante ao espelho começou a dançar.

 *Amália significa “trabalhadora”, “diligente”, “Ativa”.

Tutu* é uma parte do vestuário do ballet que se pronuncia em francês (ty.ty).

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